Quem é Marcelino ULTRA?

Quem é Marcelino ULTRA?
- Cristiano Marcelino (36 anos) é Bombeiro Militar, Ultramaratonista, Professor de Educação Física graduado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Mestre em Ciências pela UFRJ. Casado com Nilce Marcelino (37 anos) e pai de Filipe Marcelino (9 anos).

domingo, 14 de junho de 2015

Endurance Challenge Agulhas Negras Ultra Trail - Relato

EC Brasil Ultra Trail - 90K Visconde de Mauá

O Endurance Challenge é um circuito global da The North Face (TNF) com provas de excelência comprovada que acontece em vários países do mundo.
Já sendo muito aguardado, neste ano de 2015 foi a vez do Brasil sediar pela primeira vez este evento internacional.

O estado do Rio de Janeiro foi escolhido para receber este evento grandioso e o Parque Nacional do Itatiaia (PNI), com o Pico das Agulhas Negras, deu o nome à prova, mesmo com o evento tendo sede na cidade vizinha Visconde de Mauá, o principal percurso da prova – 80K – passaria ao lado deste Pico, levando os corredores a uma altitude superior a 2.600 metros.

O evento foi cercado deixou os atletas ansiosos e ofereceu as seguintes distâncias:
10K (depois foi substituída por 11K)
21K
50K (minha esposa Nilce correu nesta, sua primeira Ultramaratona)
80K (claro que minha prova)

Pouco mais de um mês antes do evento a empresa TRC Brasil (responsável pela organização da prova) fez um anúncio que surtiu um grande efeito negativo aos atletas: o percurso de 80K fora impedido de acessar o PNI, segundo alegações do ICMBio (entidade federal que regulamenta o uso dos Parques Nacionais). Com isto o percurso de 80K teria que ser redesenhado fora do PNI e junto ao Parque Estadual da Pedra Selada, onde também já passavam partes dos outros percursos. Com isto o percurso de 80K perderia além de beleza também qualidade técnica.
Outro fato que atormentava muitos atletas dos 80K era o tempo limite da prova, com 15h de corte final e seus três pontos de cortes (Hard Cutoff) intermediários:
KM 23,9 = 4h20min
KM 38,5 = 6h59min
KM 74,0 = 13h26min
No entanto a organização alegou que era uma regra global do circuito, por mim tudo bem.
A prova teve todas as inscrições esgotadas rapidamente, com os seguintes limites:
11K = 500 atletas
21K = 500 atletas
50K = 400 atletas
80K = 300 atletas
Outro grande atrativo também era a premiação em dinheiro, com R$ 23.000,00 divididos entre os cinco primeiros no geral de ambos os sexos para os percursos de 50K e 80K, além de ampla distribuição de vouchers e produtos TNF.

Mapa e Altimetria da prova (registrados em meu GPS)

Para esta competição fiz uma preparação muito aquém do esperado, devido a dois pontos de inflamação no pé direito que acabei adquirindo antes e durante os 281Km da BR135+, que finalizei em janeiro. Mas é vida que segue e parti feliz para a prova, após muitas sessões de fisioterapia e sem saber se o pé reagiria bem, mas aproveitei para ir testar quase todos os equipamentos que vou utilizar na Ultra-Trail du Mont-Blanc (UTMB – 170K) no final de agosto, incluindo meu novo par de bastões Black Diamond, sendo esta a primeira vez que usaria um par de bastões full time numa prova.

Chegando a data da prova partimos para Visconde de Mauá, juntamente com Nilce (50K) e algumas amigas de Equipe (11K). Retiramos o kit do atleta no dia anterior à prova lá mesmo em Visconde de Mauá (também tinha opção de retirada nas lojas TNF de algumas capitais). Depois participamos da Apresentação Técnica da prova.

Retirada de kit na Arena da prova

Apresentação técnica da prova

A prova prometia ser fria, mas o tempo ajudou bem na semana da competição, que reduziu um pouco o frio.

A Pedra Selada pré-prova, clima excelente!

Após algumas horas de sono parti para a largada, minha pousada ficava em Maromba, a cerca de 10 Km do pórtico de largada. O termômetro do meu carro registrava uma temperatura de 10° C, fui agasalhado e com touca e luvas, mas preferi deixar tudo no carro, só largando com a roupa que ia usar na prova.
Para entrada no funil de largada foi exigida uma checagem dos seguintes equipamentos obrigatórios:
·         Mochila da hidratação
·         Manta térmica
·         Apito
·         Corta vento
·         Lanterna de cabeça

Antes de entrar no funil de largada

O clima entre os atletas era muito legal e animado, como minha intenção não era de disputar muito, não quis me posicionar lá na frente de todos e preferi ficar do meio para trás.

Animação dos atletas pré-largada

Exatamente às 4h da manhã foi dada a largada ao 1º Endurance Challenge Brasil!

Largada da prova

Como eu sabia que por volta do KM 5 entraríamos num single track, não quis largar muito tranquilo e fui seguindo num ritmo que passava vários atletas, a fim de não ficar preso com o trânsito nas trilhas.
Uma passagem pelo um rio gelado, com o auxílio de uma corda marcava o ponto de início do single track, estava com 29min de prova e tinha uma pequena subida e depois uma longa e difícil descida, visto que parecia ser uma trilha aberta (não muito aberta) para a prova (talvez uma trilha com pouco uso) e com muitos galhos e troncos atravessados, pedras e outros obstáculos, tudo isto na escuridão da madrugada. Fiquei sabendo depois que alguns atletas se machucaram neste trecho, eu tive muito cautela e preferi diminuir bem a velocidade, mas ainda tomei uns pequenos tombos, sem gravidade, já tinha ido para o pelotão mais à frente e agora só poucos atletas mais lentos estavam à minha frente e conseguia os passar mediante solicitação, coisa que quem estava no grupo bem mais atrás não teve, pois muitos atletas falaram que perderam muito tempo por lá, devido ao trânsito na trilha. Infelizmente tem atletas que sabem que vão mais lento e querem largar mais à frente, porém também é errado quem quer ir mais rápido e larga muito para trás.

Primeira seção de single-track da prova (KM 6)

Após quase 4 Km de descida de single track saímos num pasto, ainda na escuridão, olhava para frente e via alguns atletas, dois ou três no visual pelas suas lanternas, atrás vinham mais alguns, tentava não errar o caminho, pois o pasto não possuía uma trilha bem marcada e tinha vários rios. Não sei como mais em certo momento entrei em um charco com água até a cintura e via que o atleta da frente a mais de 50 metros de mim ainda estava dentro dele, fomos seguindo pela água e com muitas pedras, vi o atleta à minha frente caindo umas duas vezes e diminuí mais um pouco para também não cair. As fitas sumiram e quando me dei conta elas estavam à esquerda, acima na trilha, nós tínhamos saído dela e entrado no charco paralelo. Gritei para frente que ia sair dali e alguns atletas me acompanharam e achamos a trilha. Não corremos a mais com isto, só ficamos dentro da água sem necessidade.

Final do trecho de mata antes do Aid#1 (KM 10)

Segundo o Course Guide da prova o primeiro Aid Station (Aid#1), seria no KM 9,4 porém o mesmo só veio no KM 12,2 e passei por lá com 1h35min. Achei estranha esta diferença, dei um confere com outro atleta e em seu GPS marcava o mesmo que o meu, tudo bem, peguei uma paçoca e segui.

Agora tínhamos um trecho de uns 500 m de asfalto para depois seguir por uma estrada de terra por uns 3 Km até a entrada para uma nova trilha. Estava com 1h56min de prova e a penumbra do dia começava a aparecer.
O Aid#2 era para ser no KM 16,7 mas ele veio no KM 18,9 com 2h18min de prova.

O caminho foi seguindo já na primeira grande subida da prova. Era uma subida em single track de 5 Km. Subi com auxílio de meus bastões, porém a vegetação da trilha atrapalhava bastante eles. Chegando ao topo agora tinha uma descida de 1,5 Km até o Aid#3, que era para estar no KM 23,9 mas foi no KM 24,9. Cheguei lá com 3h26min. Lá se encontrava o Hard Cutoff#1 que tinha o limite de 4h20min de prova e muitos atletas ficaram por ali mesmo, por terem chegado depois. Guardei minha head lamp. Também estava previsto aqui a checagem de equipamento obrigatório para todos, perguntei e disseram que estava sendo feito aleatoriamente. Comi pão tipo Bisnaguinha molhado na sopa, enchi minhas garrafas e guardei meus bastões na mochila.

Seguiu-se uma descida na qual eu comecei a somente avistar fitas azuis que era do percurso de 50K, antes sempre tinha as azuis e as laranjas (dos 80K) juntas. Fiquei com receio de ter errado o percurso, pois sabia que por ali teria a divisão dos percursos, mas como estava numa decida íngreme não quis subir de volta, parei um pouco para ver se vinha alguém de trás, mas nada. Segui descendo e avistei um staff, chegando nele perguntei se estava certo, mas ele não me entendeu, era americano e falei com ele em inglês e ele me confirmou que estava certo e que já tinham lhe avisado que estava sem fita laranja neste pedaço. Ele anotou meu número e segui por um trecho em asfalto. Um pouco mais à frente estava finalmente a divisão dos percursos, bem sinalizada e com vários staffs. O trecho seguia plano até a entrada para a Pedra Selada com uma subida de quase 1 Km até o Aid#4 que seria no KM 30,4 mas foi no KM 32,2. Cheguei ali com 4h15min de prova e o sol já se mostrava bem, bebi Coca-cola e peguei novamente meus bastões para esta dura subida de mais 2,5 Km.

Início da dura subida para Pedra Selada (KM 33)

A subida piorava quando ia chegando mais perto do final e tinha até trecho com cordas para auxiliar na subida.

Foi dureza mesmo! (KM 34)

Ao final da subida sentei rapidamente e guardei meus bastões, pois a descida de quase 7 Km prometia ser tão dura quanto a subida – e realmente foi. Novamente uma trilha muito íngreme parecendo que foi aberta para a prova, cordas auxiliavam nesta descida e acabei tomando um tombo, até de leve mais que fez um corte fundo em minha mão direita. O sangue não parava de descer, mas não parei e segui assim mesmo. Depois de um longo trecho de single track perigoso a trilha foi abrindo, porém continuava íngreme e com muitas pedras, dificultando em muito a descida. Comecei a sentir um pouco de câimbras na posterior da coxa e outro atleta me ofereceu pastilhas efervescentes de eletrólitos e me deu o tubo com várias pastilhas para eu levar, pois ele tinha extra.  Cheguei numa velha casa que servia de Aid#5, era para estar no KM 38,5 mas foi no KM 40,7. Ali era o Hard Cutoff#2 que tinha o limite de 6h59min de prova e eu cheguei com 6h01min. Falaram-me que eu estava entre os 30 primeiros e neste momento percebi que muitos atletas não chegariam ali em mais 58min. E foi o que realmente aconteceu e a maioria dos atletas dos 80K não passou dali.

Continuei no percurso, que seguia descendo com muitas pedras por um pouco mais de 1 Km.
Logo em seguida chegamos à última grande subida da prova, de 5 Km, esta era em estrada de terra bem larga e começava um pouco tímida mas depois se acentuava bem, se mostrando bem dura neste ponto da prova.

Mais uma longa subida (KM 46)

Após a subida, iniciava uma descida leve de uns 2,5 Km até o Aid#6 que seria no KM 47,0 mas acabou vindo só no KM 50,5 com um posto bem abastecido e com o pessoal atencioso, só faltou algo gelado, pois estava tudo quente e o sol ficara forte, estava com 7h26min de prova, no entanto uma fonte de água gelada serviu para refrescar o corpo.

Agora a prova seria de predominância plana, sem grandes montanhas iguais as anteriores. Eu particularmente numa Ultra Trail não gosto de trechos planos na parte final da prova, acabo ficando sem muito estímulo e perco tempo, já nas subidas ou descidas consigo desenvolver bem.
Cheguei ao Aid#7, que na verdade era um carro da organização só com água e Gatorade em temperatura ambiente, era para ser no KM 57,9 mas foi no KM 60,2 com 8h40min de prova. Queria algo salgado, fui ansioso para tomar um pouco de sopa que caiu bem antes, mas eles não tinham nada salgado e era o que eu precisava, sentia uma baixa na pressão arterial, tinha feito uma programação completa com minha nutricionista, mas como não foi seguidos os itens das Aid Stations isto fez falta, sobretudo nos itens salgados.

Continuava o trecho de predominância plana e cheguei ao Aid#8, que também era outro carro da organização, bem no ponto onde o percurso de 50K juntava com o de 80K novamente, este deveria ser no KM 66,0 mas veio no KM 68,7 com 9h48min de prova.

Agora tínhamos uma subida de 1,5 Km e o percurso teria algumas subidas e descidas menores, alternando com alguns pontos planos.
Encontrei um atleta que desistira dos 80K e esperava resgate, parei rapidamente para ver se ele precisava de algo, mas ele estava acompanhado de um staff e disse que estava bem, acabando ele me dando uma lata de sardinha, que eu dividi com outro atleta que corria comigo, foi excelente, pois precisava mesmo de algo salgado.
Estava com um incômodo grande nos pés, devido ter passado por muitos rios e tinha várias pedrinhas dentro das meias que me machucavam a um bom tempo. Passei por um staff que disse ser do local e segundo a indicação dele fiz umas contas e percebi que a prova iria acabar entre 89 e 92 Km, por isto decidi fazer uma parada para ajustar meus pés para não dar um problema maior. Tinha levado um par de meias reservas e troquei, que deu um alívio bom nos pés.

Mais um trecho de single track rumo ao fim da prova (KM 75)

O Aid#9 seria no KM 74,0 mas chegou depois de um topo de uma pequena montanha no KM 77,2 e encontrei alguns atletas dos 50K e alguns do 80K, todos reclamando que a distância estava maior e que os postos não tinham nada, só olhei rápido, me abasteci e segui descendo a montanha. Ali seria o Hard Cutoff#3 que tinha o limite de 13h26min de prova e eu cheguei com 11h23min.

Fui seguindo, encontrando outros atletas e no KM 80,4 encontrei outro posto com 11h55min de prova, este não era um Aid Station previsto mas tinha algumas coisas para os atletas, até comi um pouco de batata chips e segui, passando alguns atletas a mais dos 50K.
Mais um trecho com algumas ondulações e cheguei em fim ao Aid#10, o último, era para ser no KM 78,0 mas só chegou no KM 84,1 com 12h27min de prova. Era na saída para o asfalto, abasteci e fui embora, olhei para trás e vi outro atleta dos 80K chegando e decidi que ninguém iria me passar e acelerei pelo asfalto.

O trecho ainda tinha umas ondulações, mas segui firme em busca da linha de chegada.
Nos últimos quilômetros entrávamos em várias trilhas técnicas com erosões e bastante lama e travessia de rios. Segui determinado e passei vários atletas dos 50K.
Com 13h de prova peguei de volta minha head lamp e apesar de ainda estar claro a liguei e coloquei na cabeça, seguindo o regulamento que obrigava a fazer esta ação.
Uma última travessia de rio bem largo e com uma corda marcava o início do balizamento para a chegada, o púbico gritava e subi para a reta de chegada, cruzando a linha de chegada com 13h16min21seg e 89,71 KM, finalizando minha 36ª Ultramaratona.

FINISHER!

Como avaliação da prova concluo que a mesma teve inúmeras falhas, porém a organização se empenhou muito nesta primeira edição desta grandiosa prova e os pontos positivos superaram os negativos. No ano que vem com certeza a prova será muito melhor.

Agradeço sobretudo especialmente para esta prova aos parceiros que confiaram em mim mais uma vez:

E um parabéns especial para minha esposa Nilce Marcelino, concluindo sua primeira Ultramaratona (EC 50K):
Parabéns meu amor!

Até a próxima meus amigos!
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Um comentário:

Elaine disse...

Parabéns, Marcelino, a você e a Nilce pela prova. Muito legal ler seus relatos sobre as ultras. Sou paulistana, corro em uma assessoria daqui e pretendo estrear em ultras no próximo ano, no solo Bertioga/Maresias. Comecei a pesquisar ultras agora e seus posts foram os primeiros que li.